No centro de Itabira, uma rotatória de passagem virou o parque que mantém a cidade viva, e segura, do amanhecer à noite.
Menção Honrosa · Premiação de Boas Práticas Urbanas 2024 · CAU/MG
Números do projeto, segundo a Arsenic. Itabira tem 113.343 habitantes, Censo IBGE 2022.
Poderia uma praça seca, além de uma rotatória eficiente, transformar-se no novo parque central da cidade?
A premissa do projeto
A praça era uma rotatória: um anel de tráfego que se atravessava, mas onde ninguém ficava.
O projeto inverteu a lógica. Em vez de organizar o espaço em torno do carro, organizou em torno das pessoas, e distribuiu os usos para que a praça tivesse gente em todas as horas. Quanto mais gente usa o espaço, em mais horários, mais olhos acompanham a praça, e mais segura ela fica.
Essa relação entre presença e segurança é uma tese consolidada do urbanismo, de Jane Jacobs ao desenho urbano preventivo, e foi o princípio que organizou cada setor. O conceito está em Uso misto explicado e Olhos da rua.
Um dia na praça, do primeiro corredor ao último show.
Os primeiros olhos na praça.
A pista de caminhada e a ciclovia que contornam a praça recebem quem corre e pedala; a estação de exercícios e os bancos da contemplação trazem a terceira idade; o parcão abre o dia.
Os olhos da rua chegam para ficar.
Os contêineres de café, livraria, lanchonete, sorveteria, açaí e a banca de jornal abrem e passam a observar o espaço o dia inteiro. O centro cívico recebe feiras e o playground enche de crianças.
A praça vira ponto de convivência.
Mesas de jogos com xadrez e dominó, o parcão, o playground e as quadras concentram famílias e grupos de todas as idades.
A luz mantém a praça ocupada.
O anfiteatro a céu aberto recebe shows, peças e recitais sob iluminação cênica. As quadras seguem iluminadas e a caminhada noturna continua, então não há vazio total entre o fim do comércio e o amanhecer.
A segurança de um espaço público vem das pessoas que, sem combinar, observam umas às outras.
Jane Jacobs, os olhos da rua, 1961
A sensação de segurança nasce da presença de gente, não de muro nem de câmera.
Dois mecanismos do projeto sustentam isso. O primeiro são os olhos da rua. Os contêineres comerciais são posicionados para que os comerciantes, presentes da manhã à noite, acompanhem naturalmente o que acontece ao redor. É a vigilância informal que Jane Jacobs descreveu em Morte e Vida de Grandes Cidades, de 1961.
O segundo é o movimento contínuo somado à iluminação. O anel de caminhada e ciclovia mantém um fluxo de pessoas vendo e sendo vistas mesmo fora do horário comercial, e a iluminação cênica mantém a praça legível à noite. São princípios do desenho urbano preventivo, o CPTED formulado por C. Ray Jeffery em 1971: vigilância natural, controle de acessos, reforço territorial, manutenção e iluminação adequada.
Limite editorial declarado: a relação entre presença, uso do espaço público e segurança é apresentada aqui como tese consolidada do urbanismo, de Jane Jacobs a Jan Gehl e ao Project for Public Spaces, e não como dado estatístico. Nenhum índice de criminalidade é afirmado.
Seis setores conectados por um grande centro cívico, segundo o projeto da Arsenic.
O coração que costura tudo.
Área central que conecta os setores, com espaço para palco, feiras, shows e grandes eventos. Tem 1.400 m², segundo o projeto.
A praça que vira teatro à noite.
Anfiteatro a céu aberto, a Ágora, reformado; café e livraria em contêiner; pérgola para atividades ao ar livre; e iluminação cênica que incentiva o uso noturno.
Movimento o dia todo.
Quadra de areia para vôlei, futevôlei, peteca e beach tennis; garrafão de basquete de rua; estação de exercícios ao ar livre; e os contêineres de lanchonete e açaí como apoio.
Lugar de brincar e de passear o cachorro.
Playground com brinquedos fixos e itinerantes sob a sombra das árvores, parcão dividido por porte do animal, e uma sorveteria em contêiner para os responsáveis.
Tempo para ficar.
Mesas de jogos sob pérgola florida, a banca de jornal em contêiner, bancos e canteiros, e o branding de Itabira que emoldura o espaço.
Chegar e circular sem disputar com o carro.
Anel de ciclovia e pista de caminhada de 320 m no perímetro, posto de vigilância, e estacionamento com 57 vagas sob as árvores existentes, segundo o projeto.
As árvores existentes, mantidas. A cidade verde como infraestrutura.
A reforma preservou os canteiros originais, em torno de 80% segundo o projeto. A terra retirada virou morrotes que valorizam o paisagismo, o pavimento permeável ajuda na drenagem, e os contêineres reaproveitados abrigam serviços com baixo custo e rápida instalação, uma solução replicável. O projeto se alinha ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11, o ODS 11 de cidades e comunidades sustentáveis, segundo a Arsenic, eixo da premiação Ambiental, Saneamento e Social do CAU/MG.
| Projeto | 2023 |
|---|---|
| Obra concluída | Outubro de 2024 |
| Localização | Centro de Itabira, Minas Gerais |
| Cliente | Prefeitura Municipal de Itabira |
| Proponente | Arsenic Arquitetos Associados |
| Tema | Espaços de uso coletivo |
| Área revitalizada | 12.000 m², segundo o projeto |
| Reconhecimento | Menção Honrosa, Premiação de Boas Práticas Urbanas: Ambiental, Saneamento e Social 2024, CAU/MG, Edital 003/2024. Fonte: portal de transparência do CAU/MG. |
De rotatória a parque, a Praça Dr. Acrísio Alvarenga mostra como um espaço central pode voltar a ser das pessoas e, ao ficar cheio em mais horas do dia, ficar mais seguro.